Para além de diversos projetos,
profissionais e académicos, encontramo-nos a redigir dois ensaios
bibliográficos, de maior fôlego, sobre a documentação existente e sobre a
produção escrita relativas às vilas de Alcanede e de Pernes. Não caberia em
singela crónica, qualquer tentativa de história, por mais resumida que fosse,
destas localidades, cujas origens remotas se perdem na “noite da história”.
Pode-se entender este texto, como breve alusão ao assunto despida do aparato
teórico desses ensaios, apelando em simultâneo para uma reflexão da importância
da memória nos nossos presente e futuro coletivos.
Como por certo o leitor estará
ciente, Pernes e Alcanede foram irmanadas na mesma Carta de Foral, outorgada
por D. Manuel I, a 22 de Dezembro de 1514. Os privilégios concedidos às duas
vilas vieram, sobretudo, legitimar práticas consuetudinárias já estabelecidas
e, nesse contexto, medieval, reforçar autonomia das povoações. Porém, não será
apenas na Carta de Foral que se reflete a ligação, para além da proximidade
geográfica ou da dependência administrativa, entre Pernes e Alcanede. A mesma
está bem presente na vasta documentação dispersa nas chancelarias régias, nos
fundos de ordens religiosas ou, até, nos registos de mercês, onde se descortina
uma história das gentes e dos lugares com significativas afinidades.
Por exemplo, hoje, graças à
investigação de Luís de Melo e de João Melo Ataíde, sabemos que Padre António
Vieira esteve em Alcanede, onde se recolheu alguns meses e redigiu duas cartas
ao diplomata Duarte Ribeiro de Macedo. Terá passado por Pernes? Terá esse
repouso de António Vieira em Alcanede, alguma ligação ao estabelecimento dos
jesuítas em Pernes? São questões em aberto, merecendo investigação futura.
Notícia Histórica e Topografica da Vila de Alcanede (...) por Simão Froes de Lemos
Manuscrito do Arquivo Histórico Municipal de Santarém
Avancemos
no tempo. Chegados ao século XVIII, logo em 1726, o capitão de infantaria,
erudito e genealogista Simão Froes de Lemos (1675-1759) escreveu o célebre
manuscrito Notícia Histórica e
Topográfica da vila de Alcanede. Bastaria o facto deste “primeiro
historiador de Alcanede” ter nascido em Pernes para, novamente, relacionar a
duas vilas. Para além disso, o manuscrito versa sobre todos os lugares do então
“termo de Alcanede”, focando-se, em vários fólios, na “descrição do lugar de
Pernes”. Esta autêntica “crónica da vila de Alcanede” permanece resguardada de
um mais vasto olhar público, ansiando a conversão em livro do texto plasmado
nos três manuscritos conhecidos. Apesar da generalidade dos estudiosos apenas
se referir ao manuscrito que se guarda na Biblioteca Pública de Évora,
recentemente “descobriram-se” duas novas cópias, uma delas no fundo Manuscritos da Livraria da Torre do
Tombo (ANTT) e a outra à guarda do Arquivo Histórico Municipal de Santarém
(AHCMS), em virtude de aquisição do mesmo pela edilidade.
Convirá
não ignorar, como referências fundamentais a Alcanede e a Pernes, nas quais por
ora não nos detemos, a multiplicidade de corografias e de dicionários
geográficos, a História de Santarém
Edificada de Inácio Vasconcelos, os trabalhos de Albertos Pimentel e de
Francisco Câncio ou, entre outros, os interessantes artigos do Domingo Ilustrado e do Archivo Pittoresco. Foram as abordagens
possíveis desde dos finais do século XVIII até aos alvores de novecentos.
No século XX adentro, entre vários
artigos científicos, crónicas e obras literárias, vieram, pela primeira vez, a
lume as monografias sobre Alcanede e sobre Pernes. A Monografia de Alcanede teve a veleidade dos começos, resgatando a
memória esquecida do manuscrito de Simão Froes de Lemos, foi escrita, em 1936,
por Armando da Silva Duarte. O autor, em gesto supremo de humildade, nem fez
figurar o seu nome na edição impressa pela Junta de Freguesia. Com maior
fôlego, apresentando a única edição fac-similada do Foral Quinhentista, Joaquim
do Vale Cruz trouxe-nos, em 1994, uma leitura da “memória do lugar” em: A Vila de Alcanede. Entretanto, em três
cuidados volumes, organizada de forma temática e “sentimental” nos dizeres do
próprio autor, Mário Rui Silvestre concretizou o “sonho ancestral” da
monografia de Pernes, com Pernes – terra
antiga do bairro ribatejano. Já nestas primícias do século XXI, João de
Melo Ataíde e Luís de Melo publicaram a Nova
Monografia de Alcanede, esclarecendo “mistérios” da história da vila e
apontando novos caminhos para a investigação.
Existem
muitas outras obras, documentos, artigos, notícias ou opúsculos relacionados
com a história e com a memória destas duas vilas, sobre os quais, por economia
de espaço, cometemos o pecado da omissão. Contudo, inaugurou-se 7 de Dezembro,
pelas 15h30 uma exposição bibliográfica na Sala de Leitura Bernardo Santareno
(em Santarém), onde poderá acompanhar toda evolução da história de Alcanede e
de Pernes, na escrita que nos sobra do tempo. O evento estará patente até 10 de
Janeiro de 2014, rumando posteriormente, em datas a definir a Alcanede e a
Pernes.
Essa “escrita do tempo” não se
reporta apenas à história, será antes todo o substrato de vida e de memórias
através do qual se vai construído a identidade humana, quer das gentes, quer
dos lugares, o qual, aqui e ali, vai ficando registado sob a forma de palavras.
© José Raimundo Noras

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