A cidade Santarém já é rica em
importantes testemunhos arquitectónicos do século XX. Nomes como os de Cassiano
Branco, de Rodrigues Lima, de Pedro Cid ou de Amílcar Pinto figuram entre os
autores do património novecentista do nosso burgo. E nem valerá a pena referir
o fantástico plano urbanização de João Aguiar, o qual só por si merecerá um
estudo aturado, que não cabe em singela crónica. Porém, tem estado desconhecida
do público e, até, da própria comunidade científica, uma hipotética "marca de
Ernesto Korrodi" no concelho de Santarém.
Ernesto Korrodi nasceu na Suiça,
em 1870. Radicou-se em Portugal a partir de 1899, onde desenvolveu uma carreira
ligada, sobretudo, ao ensino artístico. Mais tarde, já como arquitecto esteve
associado às correntes revivalistas da arquitectura nacional. Desenvolveu uma
interpretação própria da “escola” de Viollet-le-Duc, defendendo, entre nós, a
necessidade restauro e de salvaguarda do património monumental do país. Ligado
profissional e sentimentalmente à cidade do rio Lis, ficou famoso o seu
projecto de reabilitação para Castelo de Leira. Deixou obra espalhada pelo
país, com um núcleo produção mais significativo, precisamente, em Leira. Contudo,
terá o seu caminho artístico passado por Santarém?
De facto, apesar de não estar
estudado, o inventário da obra deste arquitecto, incluso no livro Ernesto Korrodi (1889-1944): arquitectura,
ensino e restauro do património (Lisboa, Estampa, 1997), de Lucília
Verdelho da Costa, menciona um “Teatro em Santarém”. Trata-se de um conjunto de
peças desenhadas com o título “Projecto de ampliação e de colocação de cortina
de ferro para Teatro em Santarém”, sem data, e assinado por Ernesto e Camilo
Korrodi (seu filho), hoje à guarda do Arquivo Distrital de Leiria (ADLRA).
Terá tal projecto visto a luz do dia? Dos
desenhos originais, apenas sobra um corte, uma planta e alguns desenhos de
pormenor da cortina de ferro, onde se refere: “plateia: 53 lugares” e “balcão:
40 lugares”, dando a entender que seriam esses os lugares a aumentar. O pé
direito do corte e o desenho clássico das colunas interiores fazem-nos pensar
que o projecto se destinaria à "primeira sala" do Teatro Rosa Damasceno (o qual
se chegou a chamar Teatro de Santarém). Porém, o número de lugares, mesmo
considerando que seriam resultantes da ampliação, parece apontar outras
hipóteses.
Nesta altura — o projecto deverá
ter sido realizado entre anos 20 e os anos 40 do século XX, no máximo —,
existiriam mais dois teatros a funcionar em Santarém. Só um estudo comparativo
entre os desenhos que subsistem e os registos das salas, entretanto
modificadas, dois actuais Teatros Taborda, Rosa Damasceno e Sá Bandeira, poderá
esclarecer, definitivamente, esta questão. Contudo, mesmo que tenha sido executado,
tal projecto já não passa de memória urbana, ainda que com interesse histórico,
terá sido apenas “marca de água” deixada por Korrodi em Santarém
Mais consistente foi o projecto
para Alcanede. Trata-se de um conjunto de desenhos intitulados: “Projecto de
Jazigo para Cemitério de Alcanede, n.º 23”, também à guarda do ADLRA e
integrados no Fundo de Ernesto e Camilo
Korrodi. Ao contrário do projecto de ampliação para um teatro, estes
alçados, cortes e estudos prévios para um jazigo não estão assinados. O jazigo
destinou-se ao Padre João Gustavo Rebelo e Família, data de cerca de 1940 e hoje,
sob forma pétrea, desafia o tempo com uma marca artística, no cemitério de
Alcanede. Neste caso, existe parte do projecto e a obra edificada, apenas podem
subsistir dúvidas da autoria pela ausência de assinatura nos desenhos. O
inventário de Lucília da Costa não refere o jazigo alcanedense, mas faz menção
de um “projecto de túmulo”, de 1940. Poderá ser alusão ao monumento funerário
do Padre Gustavo Rebelo?
Jazigo de Padre Gustavo Rebelo e Família
Cemitério de Alcanede
Ernesto e Camilo Korrodi, c. 1940
Fotografias de José R. Noras
Na nossa investigação em História da Arte, temos
seguido uma máxima: “o monumento é documento de si próprio”. Se não bastassem
as restantes evidências, os motivos decorativos das portas metálicas deste
monumento funerário quase ostentam o nome do autor. O jazigo não terá
monumentalidade do Mausoléu encomendado pelo Conde de Bunay, mas tem claras
afinidades estéticas com essa e com outras obras funerárias de Korrodi.
Ernesto e Camilo Korrodi passaram por
Santarém. Por certo visitaram os teatros locais e para um deles conceberam um
plano de ampliação. Contudo, foi em Alcanede que deixaram marca indelével, num
modesto mas elegante Jazigo familiar. Do túmulo vê-se no horizonte a silhueta do
Castelo de Alcanede, como se a morte continuasse a sorrir ao tempo e os homens
buscassem nas pedras erguidas ilusões de eternidade.
Novembro 2013
José Raimundo Noras
Castelo de Alcanede visto do Cemitério
Fotografia de José R. Noras
Sem comentários:
Enviar um comentário