sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Crónica tripartida: “regresso das Cortes”, a leitura de “O Relógio” e o futuro de um cine-teatro


Os assuntos que motivam este texto mereceriam, por si só, tratamento autónomo em crónicas de maior fôlego. Por certo, outro artista das palavras saberia gizar um título prestimoso englobando os três temas e reflectindo sobre cada um, numa prosa suave em que o leitor nem sentiria a abrupta mudança de temática. Ao invés, sem esse savoir faire, deixo-vos esta tripartida reflexão sobre uma animação teatral, um livro e um edifício.

        Neste próximo fim-de-semana, dia 14, as Cortes Regressam a Santarém. Com texto de José Manuel Rodrigues e encenação de Paulo Cruz, a empresa municipal Viver Santarém entendeu produzir um espectáculo teatral baseado nas últimas cortes que tiveram lugar em Santarém, no ano remoto de 1482. Na verdade, entre os séculos XIII e XV, a então vila escalabitana, acolheu essa “reunião magna” do reino, pelo menos por treze vezes. Depois do reinado de D. João II, muito por via da morte trágica do Infante D. Afonso, na Ribeira, junto ao Tejo, os caminhos da família real afastaram-se desta vila e, não raras vezes, foram se deter em Almeirim. Estas cortes de 1482, para além de serem as últimas realizadas em Santarém, detiveram-se quase exclusivamente na discussão sobre a constituição de empréstimo público para pagar 50 milhões de reais brancos de dívida deixada por D. Afonso V. Mutatis mutandis, ontem como hoje a “dívida pública” estava no centro do debate. Este “regresso das Cortes”, com uma tarde e noite de animação histórica, parece-nos bastante oportuno. Esperemos que seja a primeira de muitas iniciativas do género. À história de Santarém não faltarão episódios onde buscar inspiração.

           Fruto de profunda inspiração poética terá sido O Relógio, novo livro de Samuel Pimenta, com a chancela da “Livros de Ontem”. Trata-se de um longo poema, vencedor do Prémio Jovens Criadores 2012, com o qual, segundo informações que recolhemos, o autor já tinha brindado o público escalabitano, em leitura emotiva, no III Encontro de Poetas Locais. O livro, de cuidado aspecto estético, revela-nos um “poeta em construção” na defesa da “multiplicidade do ser”. Essa recusa premente, quase sempre violenta da banalidade dos “dias iguais”, do conformismo das “horas redondas” apregoadas por “pessoas redondas”, está presente ao longo das páginas deste Relógio, libelo acusatório contra uma sociedade cinzenta. Como não poderia deixar de ser, são múltiplas as influências que inferimos na leitura do texto. A utilização de uma máquina enquanto objecto motivador do poema pode fazer lembrar Álvaro de Campos, porém na nossa humilde qualidade de leitores e não de literatos, vemos com maior facilidade aproximações a Alexandre O’Neil ou a António Gedeão. De qualquer modo, o poema vale por si, sendo sem dúvida um excelente afirmar da voz própria de Samuel Pimenta nos novos caminhos das letras portuguesas. A apresentação, a cargo de Maria João Cantinho e com um momento musical de Isaac Pimenta, terá lugar às 14h na Livraria Ferin, em Lisboa.
        Notas finais ­­­­­— possivelmente para reflectir na viagem de entre Lisboa, após a apresentação livro de O Relógio, e Santarém, onde chegará a tempo de assistir ao “regresso das Cortes Medievais” ­­— sobre a decisão judicial relativa ao Teatro Rosa Damasceno. Segundo nos foi dado a entender ficou o proprietário obrigado a zelar pela integridade física do espaço, não podendo, de modo algum, adulterar a matriz arquitectónica deste. Evidentemente, que saudamos esta decisão, na linha do que temos defendido para aquele espaço. De facto, o potencial cultural, patrimonial e turístico do Teatro Rosa Damasceno é enorme. Assim o atestam, por exemplo, os múltiplos trabalhos académicos aos quais temos dado apoio, como recentemente ao projecto de design da estudante Cynthia Leal. Porém, toda e qualquer solução para edifício deve envolver de forma construtiva a autarquia, a comunidade e o proprietário. Só através de um “consenso social” do que queremos para o Teatro Rosa Damasceno, saberemos construir um novo futuro sem devorar as raízes. 

©José Raimundo Noras 

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