Para
esta breve reflexão, como o leitor mais atento já deve ter adivinhado, usurpámos,
em pobre paráfrase, o título da famosa peça de José Saramago. Na peça, Camões
não sabe bem o que fazer com o seu livro, essa obra magna da nossa literatura.
Na nossa realidade, a cidade de Santarém não sabe bem o que fazer com as ruínas
legadas pelo passado, sob a forma de património.
A
19 de Junho último decorreu mais um aniversário sobre a abertura ao público da
moderna sala de espectáculos do Teatro Rosa-Damasceno. O projecto de 1938
resultou do traço firma de Amílcar Pinto (1890-1978), arquitecto lisboeta com
forte ligação a Santarém. A nova sala
estava mais vocacionada para o cinema, tendo tido excelentes críticas em
revistas da especialidade. Na época, a renovação desse teatro foi um sucesso,
bem publicitado nas páginas do "Correio da Extremadura" (hoje do Ribatejo) pelos
bons auspícios do Clube de Santarém.
Não
evocamos aqui essas memórias do Teatro que estendem até ao fim do século XX. Não
entramos no coro de lamentos ou na procura de atribuição de culpas pelo abandono
do edifício e seu posterior incêndio Nesta crónica queremos antes refletir e
provocar a reflexão sobre o futuro do espaço. Que fazer com esta ruína? É o problema
que se impõe.
Ainda
há dias, por outras palavras, a estudante de arquitectura Joana Rodrigues (a
preparar um trabalho sobre o edifício) me fazia exatamente tal pergunta. Será
de manter a função de sala de espetáculos numa futura intervenção sobre o
espaço? Não tenho dúvidas que sim. Há uns bons anos a esta parte, tenho defendido
uma solução integrada para o Teatro Rosa da Damasceno que contemple a preservação
da sua função inicial. Não tem sido uma “pregação no deserto”. No entanto, esta
minha voz de defesa do teatro moribundo, também ainda não granjeou a atenção de
um Sermão de Santo António aos Peixes.
Antes de resolvermos o que fazer com esta ruína, estou em crer que a cidade tem
de reclamar aquele espaço como seu — isto é independente da gestão pública
ou privada do mesmo e das valências que venha a ter.
Defendo
que subsistência do Teatro Rosa Damasceno, enquanto tal, só se justifica se
este mantiver a sua função original. Qualquer solução visando a única e
exclusiva preservação da fachada, não é digna para o edifício, sendo contrária
às modernas doutrinas de salvaguarda do património construído. Contudo, não
reivindico que a sala tenha as dimensões da antiga ou, até, que recuperação do espaço
se esgote nessas funções culturais. Evidentemente, para viabilização económica
do projeto, considero até útil que se possa ponderar a inclusão de valências
comercias ou de hotelaria e restauração numa intervenção sobre a ruína.
Será
importante perceber que ruína não está só. Para além do edifício contíguo do
antigo Banco de Portugal (para o qual, tanto quanto se sabe, a autarquia não
tem planos de futuro), existem na encosta vestígios da albergaria de São
Martinho e outros de épocas mais recuadas. Estou em crer que qualquer projecto
de arquitectura deve completar a integração destas estruturas na solução final.
De facto, o aproveitamento do Teatro Rosa Damasceno, com funções de sala de espectáculos,
conjugada, por exemplo, com a função de pousada, seria bastante mais fácil de
executar se previsse a integração do referido imóvel, conhecido como antigo
Banco de Portugal.
Que
fazer com esta ruína? Devolvê-la à cidade deve ser a resposta chave. Todos,
proprietário, autarquia, grupos culturais e cidadãos interessados deveremos contribuir
para a solução. Estou certo, que dessa forma, privilegiando a salutar troca de
ideais, em breve, daremos uma cabal resposta à questão. Espero que daqui a
poucos anos estejamos a assinalar o aniversário do Teatro Rosa Damasceno não
apenas através de uma despretensiosa crónica, mas antes no interior de uma antiga
ruína restaurada.
Postal "Teatro Rosa Damasceno" (anos 40), Ed. Lotty, Coleção "Passaporte"

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