sexta-feira, 21 de junho de 2013

Que fazer com esta ruína? – achegas para o futuro do Teatro Rosa Damasceno


Para esta breve reflexão, como o leitor mais atento já deve ter adivinhado, usurpámos, em pobre paráfrase, o título da famosa peça de José Saramago. Na peça, Camões não sabe bem o que fazer com o seu livro, essa obra magna da nossa literatura. Na nossa realidade, a cidade de Santarém não sabe bem o que fazer com as ruínas legadas pelo passado, sob a forma de património.

A 19 de Junho último decorreu mais um aniversário sobre a abertura ao público da moderna sala de espectáculos do Teatro Rosa-Damasceno. O projecto de 1938 resultou do traço firma de Amílcar Pinto (1890-1978), arquitecto lisboeta com forte ligação a Santarém.  A nova sala estava mais vocacionada para o cinema, tendo tido excelentes críticas em revistas da especialidade. Na época, a renovação desse teatro foi um sucesso, bem publicitado nas páginas do "Correio da Extremadura" (hoje do Ribatejo) pelos bons auspícios do Clube de Santarém.

Não evocamos aqui essas memórias do Teatro que estendem até ao fim do século XX. Não entramos no coro de lamentos ou na procura de atribuição de culpas pelo abandono do edifício e seu posterior incêndio Nesta crónica queremos antes refletir e provocar a reflexão sobre o futuro do espaço. Que fazer com esta ruína? É o problema que se impõe.

Ainda há dias, por outras palavras, a estudante de arquitectura Joana Rodrigues (a preparar um trabalho sobre o edifício) me fazia exatamente tal pergunta. Será de manter a função de sala de espetáculos numa futura intervenção sobre o espaço? Não tenho dúvidas que sim. Há uns bons anos a esta parte, tenho defendido uma solução integrada para o Teatro Rosa da Damasceno que contemple a preservação da sua função inicial. Não tem sido uma “pregação no deserto”. No entanto, esta minha voz de defesa do teatro moribundo, também ainda não granjeou a atenção de um Sermão de Santo António aos Peixes. Antes de resolvermos o que fazer com esta ruína, estou em crer que a cidade tem de reclamar aquele espaço como seu — isto é independente da gestão pública ou privada do mesmo e das valências que venha a ter.   

Defendo que subsistência do Teatro Rosa Damasceno, enquanto tal, só se justifica se este mantiver a sua função original. Qualquer solução visando a única e exclusiva preservação da fachada, não é digna para o edifício, sendo contrária às modernas doutrinas de salvaguarda do património construído. Contudo, não reivindico que a sala tenha as dimensões da antiga ou, até, que recuperação do espaço se esgote nessas funções culturais. Evidentemente, para viabilização económica do projeto, considero até útil que se possa ponderar a inclusão de valências comercias ou de hotelaria e restauração numa intervenção sobre a ruína.

Será importante perceber que ruína não está só. Para além do edifício contíguo do antigo Banco de Portugal (para o qual, tanto quanto se sabe, a autarquia não tem planos de futuro), existem na encosta vestígios da albergaria de São Martinho e outros de épocas mais recuadas. Estou em crer que qualquer projecto de arquitectura deve completar a integração destas estruturas na solução final. De facto, o aproveitamento do Teatro Rosa Damasceno, com funções de sala de espectáculos, conjugada, por exemplo, com a função de pousada, seria bastante mais fácil de executar se previsse a integração do referido imóvel, conhecido como antigo Banco de Portugal.

Que fazer com esta ruína? Devolvê-la à cidade deve ser a resposta chave. Todos, proprietário, autarquia, grupos culturais e cidadãos interessados deveremos contribuir para a solução. Estou certo, que dessa forma, privilegiando a salutar troca de ideais, em breve, daremos uma cabal resposta à questão. Espero que daqui a poucos anos estejamos a assinalar o aniversário do Teatro Rosa Damasceno não apenas através de uma despretensiosa crónica, mas antes no interior de uma antiga ruína restaurada. 
Postal "Teatro Rosa Damasceno" (anos 40), Ed. Lotty, Coleção "Passaporte"

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