No início do século XXI, estou em crer, a Câmara Municipal de Santarém, criou uma mascote para a cidade. Tratou-se de um peluche simpático que resultava de uma composição antropomórfica da Torre da Cabaças, com uns garridos calções e pés farfalhudos, conforme se pode ver na imagem. Chamou-se "Cabacinhas".
Nesse tempo, habitava mais por Coimbra e menos por Santarém, não posso com certeza auferir do sucesso da personagem no burgo e sobretudo no afecto dos scalabitanos. O certo é que me lembro bem da personagem, viva não só nos bonecos, mas também em cartazes e em acessíveis "t-shirts", as quais com alguma sorte ainda se conseguem encontrar à venda nos monumentos da cidade. Levei o Cabacinhas para Coimbra estampado numa dessas camisolas azuis e fiz sucesso na "cidade dos estudantes".
O boneco era simpático e atraia a curiosidade dos colegas, mais especialmente, das colegas de faculdade. Sem intenção expressa lá fui divulgando Santarém em terras do Mondego e, por vezes, iluminando os conhecimentos de geografia de incautos estudantes de ciências ou de direito, os quais ora julgavam localizar-se Santarém, junto ao mar "lá para Setúbal" ou na cintura industrial do Porto. Há margem da ignorância geográfica desses meus antigos colegas, para além da "t-shirt" acabei por levar o objecto, quem é como que diz o próprio "Cabacinhas" para a "Lusa-Atenas", onde durante algum tempo habitou na povoada estante do meu quarto de caloiro. Nesse ano, entre outras descobertas nas águas por vezes turvas da história, lá iniciei um namorico e o "Cabacinhas" acabou com prenda romântica nas escadas do Jardim da Sereia. Perdi o rastro à moça e, claro, não recuperei o boneco na separação. Entre anos de aturado estudo e vida social da cidade, lembro-me de ter ofertado mais dois "Cabacinhas" em Coimbra, não só a moças namoradeiras como também amigos, para já não falar da "t-shirt" com o boneco estampado.
Já cursava a pós-graduação em História de Arte ou se quiserem primeiro ano do curso de Mestrado e o "Cabacinhas" veio a ter utilidade científica. Utilizei a imagem do boneco, bem como outros símbolos da cidade onde está reproduzindo o "Cabaceiro", para demonstrar como a secular torre do relógio havia assumido uma dimensão identitária em relação à cidade e aos habitantes de Santarém. Mais recentemente, esse meu trabalho, intitulado "A Torre das Cabaças de Santarém e a evolução do conceito de património numa comunidade local" foi, para honra minha, distinguido no VI Encontro Nacional de Estudantes de História (ENEH), em Lisboa. Aí, de novo o simpático "Cabacinhas" serviu para divulgar a cidade onde vivemos e até me foi encomendado por uma colega de história. Contudo, não consegui cumprir o prometido, o "Cabacinhas", pelo menos há um ano, não se encontra à venda em lugar nenhum, que eu saiba.
Ainda esta semana, até porque se aproxima o dia de São Valentim, em conversa com amigos lembrámos do "Cabacinhas". Prenda engraçada não só para as crianças, mas também para a cara-metade. Afinal, houve tempo e dinheiro, de todos nós, investidos na criação do boneco, o qual por experiência própria resultava na divulgação da cidade. Disse, em tal conversa de café, será caso para perguntar "Quem matou o Cabacinhas?". Uma amiga logo me corrigiu, será melhor indagar: "Quem tramou o Cabacinhas?" - porque no fundo o boneco ainda vive na memória de todos nós, para além daqueles que conseguiram guardar um. Por outro lado, o retomar da produção deste boneco até pode vir ser bom negócio em tempos de crise.
Fotografia do "Cabacinhas" de Adriana Lucas
