Afinal, os
secretos desejos de alguns, as ânsias perdidas de outros ou talvez os medos
periclitantes de muitos não se concretizaram. O mundo continua em 2013.
Continua o mundo, assim como continua este nosso pequeno recanto de Portugal a
que chamamos Santarém. Neste singelo libelo, ao jeito de crónica, pretendo
partilhar convosco 13 ideias para a nossa cidade, as quais considero esteios de
uma estratégia de desenvolvimento sustentável.
De facto, este
texto vem com um ano de atraso, a sua materialização era para ter sucedido após
entrevista ao Correio do Ribatejo em Novembro de 2011, a quando da defesa da
minha tese de mestrado. Na altura, já desvendava o véu sobre um breve texto com
12 ideias para Santarém em jeito de programa futuro. Um ano passou as ideias
foram maturando, sobre algumas até já se foi discutindo e outras até me
surgiram com rol de acontecimentos do próprio ano de 2012.
Por outro lado,
bem entendido, estas ideias não são minhas. Em boa verdade só são nossas as
ideias que conseguimos colocar em prática mais ou menos sozinhos nos nossos
percursos de vida, estas ideias são da cidade e para cidade. Algumas delas
reproduzem anseios antigos de Santarém e da sua região, outras são de índole
mais pragmática. A maioria das ideias aqui enunciadas, contudo, assume-se com
desafio à cidade e às suas gentes. Saibamos nós criar sinergias, desenvolver
esforços e encarar o futuro com um optimismo realista, creio que enquanto
comunidade conseguiremos colocar esta dúzia e mais um de projectos em prática e
crescer em conjunto com uma cidade melhor.
A
criação da Universidade do Ribatejo deve será entendida pelos vários parceiros
sociais com um objectivo de desenvolvimento da região. Como já o escrevemos,
defendemos a criação de uma instituição universitária na nossa região em
conjunto com as realidades já existentes, não correndo com elas em termos de
“mercado do ensino”, mas complementando-as, com outro tipo de ofertas e até com
programas conjuntos. Com sede em Santarém deve a Universidade do Ribatejo se os
bons exemplos de estruturas de ensino multipolares e estender a outras cidades
do distrito.
A
criação (ou reactivação, porque já existiu) de uma Pousada da Juventude na
cidade de Santarém é uma reivindicação justa que deve ser entendida com
estímulo à fruição turística da cidade e do concelho. Por outro lado, neste
particular é notária a escassez de oferta hoteleira da cidade ao nível da
“pousada” ou da “pensão” pelo que os estímulos ao turismo também devem
equacionar a reactivação de infra-estruturas hoteleiras no centro da cidade.
Tendo
em conta a distância que separa os centros das cidades de Almeirim, do Cartaxo
e de Santarém, inferior a algumas áreas urbanas de outras cidades do país,
defendo que devemos esquecer bairrismos e cada vez mais pensar em estratégias
de economia de escala. Nesse sentido, creio que seria vantajoso para todas as
partes envolvidas, a integração dos transportes urbanos num sistema conjunto a
estas três cidades, com mais linhas e um serviço mais próximo dos utentes.
Santarém
não deve abandonar o desejo do regresso do túmulo do rei D. Fernando I ao
Convento de São Francisco. Estando o Convento hoje em dia aberto ao público e
já não existindo as ameaças de vandalismo que motivaram a ida do túmulo para
Lisboa o seu regresso ao local onde o rei escolheu para ser sepultado deve ser
uma vontade que devemos cumprir. Ao mesmo tempo o regresso do túmulo poder ser
entendido com oportunidade, que viabilize a criação no próprio Convento de São
Francisco de um Museu Nacional da Tumulária, como já foi defendido por figuras
diversas na área do património português.
Neste
momento Santarém é dos poucos locais no mundo onde os monumentos encerram à
terça-feira. Defendemos a criação, envolvendo os diversos agentes culturais, de
um plano de gestão patrimonial que pressuponha outra dinâmica na gestão do
património edificado, garantindo não só a abertura ao público dos monumentos da
cidade, como também a sua dinamização sazonal com actividades lúdicas e
culturais.
A
actividade tauromáquica deve ser melhor explorada e encarada como oportunidade de
desenvolvimento da cidade. Nesse sentido, consideramos que o exíguo espaço
museológico do Forcado na praça Monumental Celestino Graça não faz jus às
necessidades de promoção da Tauromaquia em Santarém. Assim, defendemos a
criação de um Museu Tauromáquico na cidade, em infra-estrutura situada no
“campo da feira”, preferencialmente na própria Casa do Campino ou na praça já
referida.
O
“Campo da Feira” necessita de um plano urbanístico claro, o qual se centre no
que se pretende da ocupação futura do espaço e que responda a determinadas
necessidades infra-estruturais da cidade. Para além da criação de um Museu
Tauromáquico de abrangência nacional, defendemos que qualquer plano para esta
zona deve prever a edificação de uma nova biblioteca pública e arquivo
municipal.
A
Casa do Brasil e o consulado honorário do Brasil necessitam de uma gestão mais
dinâmica que torne a cidade mais atractiva à comunidade e aos turistas
brasileiros em Portugal, bem como promova intercâmbios culturais entre Santarém
e o Brasil. Nesse sentido, propomos a criação de uma Fundação Casa do Brasil,
onde estejam presentes instituidores representantes da República Federativa do
Brasil, a autarquia e outros agentes culturais e empresariais da cidade.
No
contexto actual da promoção turística das cidades é importante contar com novas
ferramentas e salvaguardar valores consagrados. Por isso recomendamos o registo
das marcas “Santarém: capital do Gótico” e “Santarém: capital nacional da
gastronomia”.
Os
dois eventos já existentes na cidade o Festival Nacional de Gastronomia e a
Feira Nacional da Agricultura/Feira do Ribatejo para além de já constituírem
momentos chave na dinâmica da vida da própria cidade devem voltar a ter uma
dimensão internacional, a qual existiu em certas edições. Em ambos, os casos a
participação quer de representantes de parceiros da UE ou de países lusófonos
deve ser um aspecto a explorar.
Recuperando
antigas tradições culturais da cidade, tais como o FITIJ ou Festival de Cinema
Agrícola, defendemos a realização, bienal, de um Festival de Artes de Palco.
Este festival, a ser realizado no centro da cidade fazendo uso dos equipamentos
culturais existentes, deve envolver os grupos locais e convidados quer
nacionais, quer estrangeiros.
Em
alternância com o Festival de Artes de Palco, propomos a criação de um Festival
do Fado, aberto a todo o tipo de tendência desse género musical, hoje
património da humanidade. De facto, Santarém tem uma relação especial com Fado
sendo ponto de encontro do “fado de Lisboa” com a “canção de Coimbra”.
Deixámos
para o final o desafio maior, a religação da cidade ao rio. De certa forma, o
projecto de salvaguarda da cultura Avieira muito tem contribuído neste
particular, sendo que louvámos os seus defensores e dinamizadores. No entanto,
a cidade precisa de uma estratégia mais consistentes para explorar a sua
ligação com o rio, quer de um ponto de vista cultural e social, quer no que
respeita à criação de infra-estruturas que permitam um novo diálogo urbano com
o Tejo.
Estamos
em crer que com boa vontade e empenho a concretização destas ideias contribuirá
para o desenvolvimento sustentável da cidade onde vivemos. Se todos soubermos
participar e nos unirmos estamos em crer que todos podemos crescer com
Santarém.
© José Raimundo Noras